Esta guerra “que muitos eleitores não apoiam”

Descontentamento nas forças armadas,
conscrição e
despesas militares

A partir de Dezembro de 2026, os homens entre os 18 e os 25 anos que sejam cidadãos americanos serão automaticamente registados no Sistema de Serviço Selectivo (SSS). Com esta nova medida, o governo dos EUA poderá restaurar a conscrição, o serviço militar obrigatório, sistema em vigor até 1973: os jovens, uma vez registados, eram seleccionados aleatoriamente para serem enviados para a guerra (1). Falando da conscrição, um secretário de imprensa da Casa Branca declarou à Fox News, a 8 de Março, que Trump mantinha “todas as opções em aberto”. A decisão de pôr em prática o recrutamento automático pelo SSS aplica uma disposição da Lei de Defesa Nacional adoptada em Dezembro de 2025 com os votos de 115 representantes democratas na Câmara dos Representantes e 27 dos seus representantes no Senado (2)

Estas novas medidas estão relacionadas com a escassez de recrutamento com que as forças armadas dos EUA se têm debatido há vários anos. O exército alterou, assim, os seus critérios de alistamento pouco depois de começar a guerra no Irão: elevando o limite de idade de 35 para 42 anos e removendo restrições para indivíduos condenados por posse de canabis… Mas as recentes revelações sobre as condições de vida dos fuzileiros destacados para o conflito no Irão não vão ajudar : a imprensa publicou fotos de tabuleiros de refeições racionadas servidas a soldados que relatam não ter comida suficiente e, por vezes, acesso a produtos de higiene!

Além disso, custa ao exército recrutar num país em que a rejeição da guerra é cada vez mais visível. Novo acontecimento: cada visita oficial de Trump é agora acompanhada de uma manifestação. Assim, a 17 de Abril, em Phoenix, no Arizona, o presidente foi recebido por dezenas de manifestantes com cartazes que diziam “Trump é um criminoso“, “Fim à guerra de Trump no Irão!“. e “Não à guerra!“, quando se preparava para discursar num comício. Três dias antes, numa reunião da organização de extrema-direita Turning Point, na Geórgia, o vice-presidente JD Vance foi interpelado sobre Gaza: “Jesus Cristo não apoia o genocídio!“. “Vocês estão a matar crianças! Estão a bombardear crianças!“… e foi obrigado a responder: “Reconheço que os jovens eleitores não gostam da nossa política no Médio Oriente. Eu compreendo.

Entretanto, Trump também tem dificuldade em convencer o Congresso a aprovar novos gastos militares: “A guerra no Irão pôs em evidência muitas deficiências militares… Trump tem 60 dias para conduzir operações militares sem autorização do Congresso. O prazo está quase a terminar. Poderia pedir uma prorrogação de 30 dias, mas alguns republicanos têm dito que deixariam de apoiar a guerra se ela se prolongasse além disso. [A incerteza sobre o custo da guerra em curso] torna mais difícil chegar a um consenso… sobre novos gastos para uma guerra que muitos eleitores não apoiam” (NPR, 17 de Abril).

Nelly Mary

(1) Durante a Guerra do Vietname (1955-1975), a conscrição resultou na morte de quase 60 mil jovens americanos e em danos físicos e psicológicos irreparáveis ​​a centenas de milhares de sobreviventes.

(2) Sem provocar qualquer reacção da chamada “ala esquerda” do Partido Democrata!