GUERRA NO IRÃO: QUEM ESTÁ A GANHAR?

A 28 de Fevereiro, os Estados Unidos e Israel lançaram um ataque no Médio Oriente, bombardeando o Irão.

Inebriado pelo rápido “êxito” da sua incursão na Venezuela e “empurrado” por Netanyahu, que garantia uma vitória rápida e histórica em três dias, Trump lançou-se numa aventura pobremente planeada e de consequências imprevisíveis.

Os objectivos declarados por Trump no primeiro dia da guerra eram: forçar o Irão a interromper o seu programa de enriquecimento nuclear e a abandonar o seu stock de urânio enriquecido; abandonar o programa de mísseis balísticos; deixar de apoiar os seus aliados na região; e, sobretudo, conseguir a mudança do regime iraniano (leia-se: a instalação em Teerão de um regime submisso aos EUA, como na Venezuela).

No entanto, quase três meses depois, falhadas as negociações e com tréguas prorrogadas, “o bloqueio americano e o controlo de Teerão sobre o Estreito de Ormuz criaram um impasse, sem que nenhum dos lados ceda, agravando-se as dificuldades económicas e intensificando o risco de uma nova guerra”, (Reuters, 18 de Maio). À medida que a crise política se intensifica nos Estados Unidos — bem como no Estado de Israel — as constantes mudanças nas declarações de Trump têm o ar de uma escalada desesperada.

A SITUAÇÃO NO TERRENO

IRÃO

No campo militar, o Irão não só mostrou resistência e capacidade de absorver o impacto dos ataques a todos os níveis – para Teerão, a guerra é existencial – como demonstrou a sua capacidade de fazer sofrer os inimigos e respectivos aliados, tendo atacado e danificado instalações petrolíferas, de gás e industriais em Israel e nos países do Golfo e destruído importante equipamento militar americano em bases da região (The New York Times, 26 de Março).

Apesar dos mais de 24 mil ataques contra alvos militares, civis e infra-estruturas no Irão, o regime não abandonou o seu programa de enriquecimento nuclear, mantém capacidade de lançar mísseis e drones e de atingir alvos em Israel e nos países do Golfo.

No campo económico, o Irão vende petróleo a preços muito mais elevados, estando a economia mundial, a começar pela Ásia, mas alastrando lentamente à Europa e EUA, a sentir o impacto dos preços muito mais elevados de combustíveis, agora muito mais escassos.

Diz a Reuters (20 de Maio) que “o Irão está a consolidar o controlo do Estreito de Ormuz com postos de controlo nas ilhas, acordos diplomáticos e, por vezes,portagens”. O Irão está a pôr no terreno um sistema de libertação por etapas das embarcações no Estreito de Ormuz, à medida que as nações tentam repor stocks de energia cada vez mais escassos, afectados pela guerra. Os EUA advertiram contra a sujeição aos controlos iranianos. Alguns armadores e governos arriscam.”

No campo político, o Irão preservou as relações com os seus aliados na região (como o Hezbollah no Líbano e as milícias xiitas no Iraque), e, internamente, o regime não só continua no poder, como parece capaz de concitar maior apoio popular do que no início da guerra, quando o país parecia à beira de uma revolta popular.

ESTADOS UNIDOS

No campo militar, apesar de ser a principal potência imperialista do mundo, os Estados Unidos não dispõem de recursos ilimitados. Não conseguirem derrotar o Irão nem livrar-se do conflito com a rapidez que Trump prometia tem consequências para a sua capacidade militar imediata*: “A pressa do Pentágono em rearmar as suas forças no Médio Oriente torna-o menos preparado para confrontar potenciais adversários, como a Rússia e a China (a prioridade número um dos EUA – ndr), afirmam responsáveis governamentais e do Congresso” (The New York Times, 23 de Abril).

No campo económico, a especulação petrolífera, o complexo militar-industrial, a pilhagem de recursos: são sectores parasitários e destrutivos da economia capitalista global que necessitam do confronto constante que Trump cria (e, seguindo o seu exemplo, todos os governos imperialistas).

Por outro lado, apesar da sua aparente “firmeza”, Trump é incapaz de se livrar do impasse que criou. As constantes oscilações na gestão da trégua com o Irão preocupam os mercados financeiros, cujos relatórios de perspectivas económicas resumem, melhor do que ninguém, o atoleiro em que o chefe do imperialismo americano se meteu. “As suas previsões, que antecipavam um conflito relativamente breve com consequências económicas mínimas, parecem estar a desfazer-se à frente dos seus olhos” (New York Times, 3 de Maio).

De acordo com a Reuters, embalados na “esperança de uma guerra curta no Irão, os investidores não estão preparados para lidar com a duplicação dos preços físicos do petróleo”. (…) O chefe da Agência Internacional de Energia (AIE) afirmou em Abril que os preços do petróleo não reflectiam a situação actual e que o mundo deveria preparar-se para preços muito mais elevados” (1 de Maio).

Para os EUA, o efeito líquido dos grandes aumentos dos preços dos combustíveis fósseis no rendimento real agregado é modestamente positivo, dado que o país é um exportador líquido, embora os efeitos distributivos sejam negativos” (Martin Wolf, Financial Times, 11 de Março de 2026). Ou seja: inflação, agravamento das desigualdades, etc.

A decisão do presidente Donald Trump de oferecer uma trégua por tempo indeterminado semeou a confusão nos mercados financeiros, com os analistas a terem dificuldade em prever como poderá a guerra terminar. Aponta igualmente para que Trump esteja cada vez mais encurralado, reacendendo receios de que o pior ainda esteja para vir”, observa um destes relatórios (InvezzFinantial News, 22 de Abril). Nem o imperialismo mais forte é omnipotente nem pode escapar às suas próprias contradições.

No campo político, o não conseguir livrar-se do conflito agrava a crise política e económica. Os preços mais elevados da energia e dos fertilizantes, e as quantidades limitadas disponíveis já estão a ter repercussões políticas significativas em todo o mundo. Uma das principais promessas de campanha de Trump foi lidar com a inflação, além de acabar com as “guerras intermináveis”. A guerra no Irão está a corroer seriamente a sua base eleitoral, ao aproximarmo-nos das eleições intercalares, além de ter provocado uma cisão monumental no movimento MAGA. A guerra nunca foi popular nos EUA. Mas, agora, apenas 24% do público norte-americano acha que a guerra no Irão “valeu a pena”.

Assim, um dos principais receios do imperialismo americano está no interior. Um número crescente de vozes levanta-se contra Trump entre os republicanos, que temem que a guerra e o seu impacto no poder de compra dos norte-americanos os prejudique nas eleições de Novembro. A 30 de Abril, depois de anunciar que a guerra no Irão já tinha custado 25 mil milhões de dólares, o secretário da defesa Hegseth bateu com o punho na mesa: “O nosso maior adversário é a retórica frouxa e derrotista dos democratas e de alguns republicanos.”

Mas, embora a administração Trump ainda consiga controlar a crise dentro do seu próprio partido, é, no mínimo, incapaz de conter a crescente rejeição da guerra em todo o país. Até associações de veteranos estão a organizar manifestações para exigir o fim da guerra. “Sempre acreditei que, se o meu país me enviasse para a guerra, teria uma boa razão para o fazer, que se justificaria“, explicou um deles. “Mas não havia justificação para nos enviar para o Iraque, tal como não há hoje motivo para enviar os nossos soldados para o Irão.”

A nível internacional, a guerra aprofundou também as clivagens entre os EUA e a Europa. Embora a Europa capitalista esteja fortemente limitada na sua capacidade de traçar um rumo separado ou mesmo divergente dos Estados Unidos – devido à persistente crise das próprias potências capitalistas europeias – , têm surgido, pela primeira vez, sinais de alguma resistência a Trump (aproveitando o seu enfraquecimento) entre os dirigentes europeus, o que não impediu alguns deles (nomeadamente Portugal, nas Lajes) de lhe dar importante apoio logístico.

Depois dos estragos que a guerra lhes causou, os países do Golfo ponderam virar-se para a Rússia e para a China (alguns com propostas concretas) e reavaliam as relações com o Irão, o que, globalmente, reforçaria as posições da Rússia e da China.

Uma eventual derrota para os EUA fará com que vários países se aproximem dos seus adversários (veja-se a viagem do primeiro-ministro espanhol à China, as declarações da Coreia do Sul sobre Israel e a visita do chefe da oposição de Taiwan à China). Sobre a visita de Trump à China, as declarações entusiásticas de Trump e positivas de Xi Jinping não coincidem com o retrato feito pela imprensa capitalista global. A cimeira “reflecte o ritmo das tensões, queixas e suspeitas que se acumularam recentemente” (El País), e os “relatos oficiais (americanos e chineses – ndr.) revelam visões espantosamente divergentes sobre o que mais importou” (The Straits Times).

QUE CONCLUSÃO?

Na segunda-feira, 11 de Maio, o comentador de internacional François Clemenceau falou à BFMTV sobre a guerra no Irão: “Há uma espécie de inversão no equilíbrio de poder para os iranianos, porque não perderam a guerra. Portanto, para eles, isto não significa que tenham ganho, mas permite-lhes aumentar a pressão nas duas principais questões restantes: a reabertura do Estreito de Ormuz e a questão nuclear (…). Desde que consigam manter-se de pé, podem dizer aos americanos: ‘Deixem de achar que, para sair desta guerra, nós teremos de nos ajoelhar.’”

Quando até o comentador de um canal de televisão reaccionário, alinhado com o imperialismo desde o início da guerra, declara que o Irão não perdeu a guerra, o espectador concluirá que estão a perdê-la os Estados Unidos. Escrevê-lo não é secundar o governo iraniano; é simplesmente uma observação. Uma observação que, aliás, há semanas se tem vindo a tornar comum nas colunas dos meios de comunicação burgueses. “Porque é que Trump está a perder todas as suas guerras?”, estampou o Le Grand Continent a 16 de Abril. “Donald Trump perdeu o controlo?”, pergunta o L’Express de 21 de Abril. A 7 de Maio, o canal de televisão France 24 promoveu um debate sobre o tema: “Guerra no Irão: a falência de Donald Trump?”.

Mais cedo ou mais tarde, a guerra terminará, com toda a probabilidade, com um acordo formal ou tácito, mas tudo indica que, apesar de ser a principal potência imperialista do mundo, os Estados Unidos não conseguiram colocar o Irão de rastos nem desembaraçar-se do conflito, que só agrava a sua própria crise política e económica.

A guerra enfraquece o imperialismo norte-americano no cenário internacional e também a posição política de Trump internamente.

O comportamento cada vez mais errático do presidente americano (ou a sua saúde mental) é menos a causa da crise, como muitos comentadores mainstream pretendem, e mais um sintoma de um sistema em declínio.

Novos conflitos externos, com Cuba apontada como possível alvo — mas sem garantia de sucesso —, poderão não servir para a administração recuperar força política antes das eleições intercalares.

Entretanto, Israel não conseguiu atingir plenamente os seus objectivos no Líbano. Apesar da intensificação da repressão dos palestinianos, tão-pouco Netanyahu sai reforçado, com a reputação internacional do país a deteriorar-se nos próprios EUA, com os jovens norte-americanos e parte dos judeus americanos a afastarem-se do apoio a Israel.

No futuro, esta guerra poderá ser vista como um ponto de viragem significativo no declínio da presidência de Trump e do poder global dos EUA.

Ainda que o conflito termine rapidamente, o impacto económico persistirá. O encerramento do Estreito de Ormuz e a redução da oferta de petróleo e gás aumentaram duravelmente os preços da energia, com efeitos que se continuarão a sentir na Europa e nos EUA por, no mínimo, meses.

Manifestações de milhões de jovens e trabalhadores contra a guerra nos próprios Estados Unidos e no mundo, o aumento geral do custo de vida e a possibilidade real de uma crise económica grave ou mesmo devastadora, apesar e/ou por causa dos astronómicos aumentos dos orçamentos militares, mostram que Trump não só não ganhou a guerra no Irão, como tão-pouco a que trava internamente contra a classe trabalhadora.

* Um recente relatório ao Congresso (ver aqui) reporta a perda de 42 aeronaves militares entre 2 de Março e 14 de Abril, com um valor estimado de 7 mil milhões de dólares (parte do custo global da operação “Fúria Épica”, estimado em pelo menos 29 mil milhões de dólares). Além disto “Imagens publicadas pelos meios de comunicação social estatais iranianos e verificadas pelo The Post mostram danos em pelo menos 228 estruturas ou equipamentos em instalações militares dos EUA” (The Washington Post, 7 de Maio de 2026).

Por detrás das grandes ameaças

Para o Irão, o tempo está a esgotar-se, e é melhor que ajam rapidamente, caso contrário não restará nada deles“, ameaçou Trump na sua rede social Truth a 17 de Maio.

Esta não é a primeira vez que faz tais declarações, e ninguém pode prever se ele as irá realmente cumprir. Ao mesmo tempo, Israel continua a sua ofensiva mortal no Líbano, com mais de 3.000 mortes oficialmente relatadas. Mas não se deixem enganar: por detrás das grandes ameaças, o imperialismo americano está longe de estar numa posição de força. “A reconstrução do arsenal de mísseis balísticos do Irão contradiz a tese de uma vitória esmagadora dos EUA” (Le Monde, 15 de Maio). De acordo com as investigações do New York Times e do Washington Post, o regime iraniano preservou aproximadamente 70% da sua capacidade de mísseis balísticos, contrariando o que Trump afirmou dois dias antes: “O exército iraniano está dizimado”. A crise económica só piora. Um estudo da Universidade de Brown, publicado a 18 de Maio, indicou que o aumento dos preços da gasolina já tinha custado à família americana média 300 dólares. No mesmo dia, a Reuters alertou que a guerra já tinha custado às empresas cotadas nos Estados Unidos, Europa e Ásia mais de 25 mil milhões de dólares. “Por agora, os lucros das empresas ainda se mantêm relativamente bem. Os lucros do primeiro trimestre permitiram mesmo que importantes índices americanos, como o S&P 500, atingissem novos máximos históricos. Mas os analistas prevêem uma forte queda nos próximos meses” (La Tribune, 18 de Maio de 2026).