Seja para Trump ou a para União Europeia, o genocídio em Gaza ou a invasão do Líbano, Netanyahu e Israel gozam sempre de uma completa impunidade.

Líbano

Impunidade total
para Netanyahu e Israel

É um mundo de pernas para o ar: a 12 de Abril, a partir do território do sul do Líbano invadido e ocupado por Israel, Netanyahu vangloriou-se: “Frustrámos a ameaça de invasão do Líbano (pelo Hezbollah – ed.) graças a esta zona de segurança. Concluímos uma tarefa colossal (…). Ainda há trabalho a fazer, e estamos a fazê-lo.” Uma “tarefa colossal“? Desde os primeiros bombardeamentos e a invasão do sul do Líbano, a ofensiva israelita expulsou mais de um milhão de libaneses das suas casas. E quando Trump foi obrigado a fazer tréguas com o Irão, permitiu que Netanyahu continuasse e agravasse os seus crimes contra o povo libanês. O jornal libanês L’Orient-Le Jour noticia: “No primeiro dia do cessar-fogo entre o Irão e os Estados Unidos, o exército israelita realizou cem ataques em dez minutos. (…) Ataques que, em Beirute em particular, atingiram bairros densamente povoados sem qualquer aviso prévio. O número de vítimas, que continua a subir, é assustador: 357 mortos e quase 2.000 feridos.” Uma “operação colossal”? A verdade é que “as autoridades israelitas estão a aplicar a mesma estratégia no Sul do Líbano que em Gaza (…). Nos últimos dias, novas imagens do exército israelita mostram operações de demolição em massa em aldeias do Sul do Líbano” (L’Orient-Le Jour, 11 de Abril).

Apesar da cessação das hostilidades acordada (a 16 de Abril e prolongada por 45 dias a 14 de Maio) o exército israelita continuou a atacar continuadamente a população civil, principalmente no sul do Líbano. “O saldo acumulado dos ataques, de 2 de Março a 18 de Maio, é o seguinte: 3.020 mártires e 9.273 feridos”, afirmou o Ministério da Saúde libanês, especificando que entre os mortos estavam 211 pessoas com menos de 18 anos e 116 profissionais de saúde. E, acima de tudo, o sul do Líbano está a ser transformado numa “terra de ninguém”: “Israel tem atacado deliberadamente os sistemas de abastecimento alimentar do sul do Líbano, principalmente bombardeando o porto pesqueiro de Naqoura, os sistemas de irrigação e as explorações agrícolas.” “Os ataques no sul do Líbano são semelhantes aos que se verificam em Gaza e na Cisjordânia, incluindo a destruição de pomares e olivais, e o assassinato de agricultores, pastores e dos seus rebanhos”, denuncia um representante humanitário libanês. O site Reporterre (20 de Abril), que publicou este testemunho, conclui: “Em todo o lado, Israel procura tornar os territórios inabitáveis e ocupá-los”. A cidade libanesa de Bint Jbeil foi, por isso, reduzida a cinzas, e as primeiras imagens publicadas pela imprensa libanesa recordam as ruínas de Gaza. Condenando esta «barbárie», a União dos municípios do distrito declara no entanto “que os habitantes do Sul em geral, e os de Bint Jbeil em particular, continuarão agarrados à sua terra como raízes” e que “toda a ocupação e toda a tirania estão destinadas a desaparecer.”

Palestina

De Gaza a Umm al-Khair:
a abominação continua

A situação do povo palestiniano já desapareceu das manchetes dos grandes meios de comunicação. No entanto, quem ousaria dizer que o genocídio não continua? Segundo a ONU, a União Europeia e o Banco Mundial (20 de Abril), 371.888 casas foram destruídas, assim como quase todas as escolas; mais de 50% dos hospitais estão fora de serviço; Foram deslocadas 1,9 milhões de pessoas; e mais de 60% da população está desalojada.

Nagham Zbeedat, no jornal israelita Haaretz (20 de Abril), descreve a realidade da “vida” em Gaza: “As restrições (impostas por Israel – ed.) (…) continuam a impedir a entrada de material médico essencial em Gaza.” Isto inclui mesas cirúrgicas, bisturis, peças necessárias para reparar aparelhos de ecografia, ventiladores e incubadoras para bebés prematuros.” O jornal suíço Le Temps (20 de Abril) refere que “as doenças causadas por insectos, roedores e água contaminada estão a alastrar rapidamente”.

De acordo com o estudo, as necessidades de reconstrução na Faixa de Gaza nos próximos dez anos estão estimadas em 71,4 mil milhões de dólares (60,7 mil milhões de euros). Uma quantia significativa, sem dúvida. Mas uma gota no oceano face aos 2,7 biliões de dólares gastos em defesa global.

E na Cisjordânia? Encorajados pelo governo israelita e pelo seu exército, os abusos dos colonos contra a população palestiniana, com o objectivo de a expulsar das suas terras, nunca atingiram tal nível. Em Umm al-Khair, uma aldeia de 700 habitantes na província de Al-Khalil (Hebron), as crianças e os professores são impedidos de ir à escola. Os colonos instalaram arame farpado reforçado para bloquear o acesso. Como resultado, os estudantes protestam diariamente, gritando “Abram a estrada!“, mas o exército garante que ninguém ultrapassa a barreira. O activista israelita anti-apartheid Andrei Khrzhanovsky partilhou amplamente o apelo de Tariq Hathaleen, um dos professores: “Estamos a apelar a todos: jornalistas, activistas, todos aqueles que nos podem ajudar a divulgar a mensagem. Somos a aldeia de Umm al-Khair, e os nossos filhos, os nossos estudantes, estão a ser bloqueados pelos colonos (…). Precisamos do apoio de todos, da mobilização dos meios de comunicação social e de uma maior pressão externa sobre a ocupação israelita para reabrir esta estrada, que está bloqueada sem justificação. A cumplicidade dos governos das grandes potências tem de terminar. Devem romper todos os laços com o estado genocida que permite estas abominações!

A impunidade de Israel em Gaza
é um incentivo à devastação do Líbano
e à ideologia de supremacia sionista
da extrema direita judaica

Não compreendo como é que este mundo pode permanecer em silêncio perante Israel…” Foi o que Ahlam, uma refugiada expulsa da aldeia de Kfar Kila, no sul do Líbano, disse à BFMTV no dia 9 de Maio. Tal como dezenas de outras aldeias, Kfar Kila foi completamente destruída pelo exército israelita. Tal como Khiam, uma aldeia “arrasada num segundo pelo exército israelita”, que transmite orgulhosamente o vídeo do bombardeamento, noticia a BFM. “Esperaram pelo cessar-fogo para rebentar com tudo”, diz Mayssam, uma avó refugiada originária da região. Com lágrimas nos olhos, ela continua: “Destruíram o centro de saúde, destruíram os locais de culto, as igrejas. (…) Não se preocupam com nada. São eles, e só eles”. No Líbano, explica a BFM, “os ataques israelitas sucedem-se e são todos iguais”.

No entanto, a maioria dos governos europeus não querem impor sanções contra Israel, por temerem ofender o seu patrono americano. Isto aplica-se tanto ao Líbano como a Gaza e à Cisjordânia.

Ainda assim, esta cumplicidade encoraja Netanyahu a ir ainda mais longe. O antigo diplomata e académico Jean-Pierre Filiu tem toda a razão ao escrever no Le Monde (10 de Maio) que “a impunidade de Israel em Gaza só pode encorajá-lo a ser igualmente implacável no Líbano”. A única questão que vale a pena colocar aos defensores da democracia é a exigência da ruptura imediata de todos os laços diplomáticos, militares, comerciais, culturais e desportivos entre os seus governos e o Estado genocida.

Israel está a matar civis no Líbano e no Irão impunemente porque ninguém os impediu de cometer genocídio em Gaza durante dois anos e a contar.

Tal como fizeram em Gaza, os líderes israelitas acreditam que podem cometer atrocidades contra civis no Líbano e no Irão sem enfrentar qualquer consequência.

Esta impunidade alimenta a ideologia de supremacia sionista da extrema direita judaica, que preconiza um Médio Oriente reorganizado sob a hegemonia da “Grande Israel”, à qual Benjamin Netanyahu declarou a sua solidariedade.

Exigimos que os todos os governos do mundo (começando pelo de Portugal) ponham de lado a cumplicidade silenciosa ou as palavras ocas de vaga condenação e cortem todas as relações com o estado colonialista e genocida de Israel!

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