Não à nova Nakba (dossier)

A 29 de maio de 1947, a Assembleia Geral da ONU adotou a Resolução 181, que dividiu a Palestina, criando artificialmente um “Estado Judeu” (a proclamar em maio de 1948) e um “Estado Árabe” que nunca chegaria a existir.

A resolução, proposta pelos representantes do imperialismo norte-americano, foi apoiada pelos representantes da burocracia soviética, liderada por Estaline. Os governos britânico (antiga potência colonial na Palestina) e francês também a endossaram.

Durante maio de 1948, as milícias sionistas — que tinham recebido armas do governo soviético liderado por Estaline via Checoslováquia — expulsaram das suas terras quase 900 mil palestinianos, quase metade da população palestiniana da época. Aldeias foram destruídas e atrocidades foram generalizadas. O Estado de Israel foi proclamado a 14 de maio. Durante setenta e oito anos, milhões de refugiados palestinianos e os seus descendentes viveram em campos e na diáspora. Mas nunca renunciaram ao seu direito de regresso.


Na imagem: manifestação de estudantes em Umm al-Khair, 29 de abril.

Tariq Hathaleen é professor de Inglês em Umm al-Khair, na Cisjordânia.

Relata: “Na manhã de 13 de Abril, retomei as aulas após um mês e meio de interrupção devido à guerra israelo-americana contra o Irão. Tal como todos os outros professores da escola, situada perto da minha aldeia, Umm al-Khair, na região de Masafer Yatta, na Cisjordânia ocupada, estava ansioso por ouvir novamente as gargalhadas familiares das crianças a ecoar nas salas de aula, para as ver de volta às suas carteiras (…). Mas nessa manhã, algo terrível tinha acontecido…” O caminho de terra que ligava as casas da aldeia à escola tinha sido bloqueado por arame farpado adornado com a bandeira israelita por um grupo de colonos. Pais e professores queixaram-se às autoridades de ocupação: “Os soldados israelitas chegaram pouco depois, mas em vez de nos ajudarem, começaram imediatamente a disparar gás lacrimogéneo contra as crianças e os seus pais. (…) Desde então, todas as aulas começam não na sala de aula, mas em frente à vedação de arame farpado. Às 7h00, hora a que as crianças costumam ir para a escola, reúnem-se na barreira com ativistas palestinianos, israelitas e internacionais, entoando slogans para os soldados ali estacionados e para o guarda de segurança do povoamento, exigindo que abram a estrada e exibindo cartazes que reivindicam o seu direito à educação.” Esta atrocidade cometida pelos colonos e pelo exército contra os residentes e as crianças em idade escolar é apenas uma das milhares de outras atrocidades cometidas contra a população palestiniana da Cisjordânia.

Cada dia traz consigo a sua quota-parte de assassinatos, ferimentos, violência — incluindo contra crianças e idosos —, quintas e olivais queimados ou destruídos por tratores, rebanhos confiscados, novos colonatos estabelecidos… Até ex-oficiais de alta patente do exército israelita tiveram de o reconhecer, como ocorreu em Março último, quando quatro ex-oficiais descreveram estes atos como “puros e simples pogroms”, em referência aos massacres de populações judaicas cometidos sob o Império Czarista na Rússia.

A “violência e o terrorismo” dos colonos judeus, tal como estes militares os descrevem, bem como a violência do exército israelita, são responsáveis ​​pela morte de mais de 1.000 palestinianos na Cisjordânia desde outubro de 2023 (enquanto mais de 70.000 foram massacrados em Gaza durante o genocídio).

E o que estão a fazer Macron, Merz, Starmer e outros chefes de Estado e de Governo “civilizados”, sempre tão rápidos a impor sanções contra aqueles que rotulam de “regimes autoritários”? Nada. Pior ainda, continuam os seus acordos comerciais, as entregas de armas e a cooperação diplomática, desportiva e cultural… Pelos estudantes de Umm al-Khair, pelos aldeões assassinados e agredidos… é urgente que todas as organizações democráticas dignas desse nome se unam para obrigar o governo de Macron a romper imediatamente todas as relações com o Estado de Israel.


“Ainda tenho esperança de voltar…”

Aos 88 anos, Nassera sobreviveu à Nakba de Maio de 1948 e ao genocídio do povo palestiniano entre 2023 e 2026. Moradora no campo de refugiados de Nuseirat, nas ruínas de Gaza, disse ao jornalista da Rádio França Internacional (RFI) que a entrevistava a 15 de maio, com a voz embargada: “Ainda tenho esperança de voltar à Palestina”.

A aldeia de Karatiyya, de onde a sua família foi expulsa em Maio de 1948, já foi destruída há muito tempo. Mas, apesar do genocídio e da passagem do tempo, tal como milhões de refugiados e os seus descendentes, amontoados em campos em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano, na Jordânia e noutros locais, Nassera não desistiu do seu direito de regressar.

Mas, ao mesmo tempo, o Estado genocida de Israel, beneficiando da vergonhosa cumplicidade de Trump, mas também dos principais governos ocidentais, incluindo o de Macron, pretende levar por diante a expulsão do povo palestiniano de todas as suas terras, numa nova Nakba que não se atreve a pronunciar o seu nome.

E não apenas na Palestina: Netanyahu ocupa hoje o sul do Líbano e uma porção do território sírio. Com a aprovação das potências ocidentais.

Como defensora da democracia, isto é, de uma solução que garanta a igualdade de direitos a todas as populações — muçulmanas, cristãs, judaicas, ateias — que vivem no território histórico da Palestina, a Plataforma por um Partido dos Trabalhadores rejeita a verdadeira “conspiração do silêncio” que fez com que o destino do povo palestiniano desaparecesse das manchetes dos principais meios de comunicação.

Damos voz a todos aqueles — árabes e judeus da Palestina — que rejeitam esta nova Nakba.


A Nakba em discurso drecto

O activista da ODSI (Iniciativa por um Estado Democrático), Naji El Khatib conta a história desta tragédia, como lhe foi transmitida pelos seus pais aqui:

https://ainternacional.pt/2024/07/04/lembro-me/.

“Limpeza étnica”

“Em Jerusalém Oriental, os palestinianos estão a ser forçados (por Israel – nota do editor) a destruir as suas casas para evitar pesadas multas“, noticiou a France Info a 15 de Maio. “A Nakba continua, acreditam os palestinianos“. Um desses moradores testemunhou: «Destruí a minha casa enquanto chorava. As lágrimas corriam soltas. Durante vários dias, não consegui comer. Não sei mesmo para onde vamos». Ainda tem o rés-do-chão para destruir. Ele recusa-se a aceitar. A sua mãe, de 97 anos — já deslocada três vezes desde a criação do Estado de Israel — e o seu filho, de 35 anos, que tem autismo, vivem lá. (…) Hoje, as ONG de direitos humanos — como a organização israelita B’Tselem — falam abertamente de “limpeza étnica“.


Youssef, 16; Hussein, 18…

Chamava-se Youssef Ali Kaabneh, de 16 anos. Foi assassinado a 13 de Maio durante um ataque do exército israelita e de milícias de colonos contra pastores palestinianos perto de Jiljilya, a norte de Ramallah (Cisjordânia). Os atacantes roubaram ainda centenas de ovelhas, cabras e tractores. Segundo a UNICEF, 71 crianças palestinianas foram assassinadas na Cisjordânia desde o início de 2025.

Hussein Bsharat, de 18 anos, vinha de uma aldeia de pastores no Vale do Jordão. A 10 de abril, foi detido quando saía da quinta da família para vender queijo. Durante uma revista, os soldados encontraram uma pequena faca no seu veículo, que utilizava para abrir fardos de palha para alimentar as suas ovelhas. Um tribunal israelita ordenou a sua libertação sob fiança. O exército opôs-se a isto e, a 26 de Abril, um tribunal militar ordenou a sua “detenção administrativa” por quatro meses. Em Abril de 2026, 3.532 palestinianos estavam detidos sob este regime arbitrário.


“Violência sexual generalizada”
nas prisões israelitas

O New York Times, numa investigação publicada a 11 de Maio, revela que Israel desenvolveu “um padrão de violência sexual generalizada contra homens, mulheres e até crianças — cometida por soldados, colonos, interrogadores da agência de segurança interna Shin Bet e, principalmente, guardas prisionais”. Sabe-se que o Estado israelita tortura quase 10 mil prisioneiros palestinianos — incluindo 400 crianças. Em Fevereiro, o Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ) já tinha denunciado “violência sistémica, incluindo violência sexual”, contra jornalistas palestinianos nas prisões. Netanyahu ameaçou o New York Times com medidas legais, acusando-o de ter “difamado soldados israelitas”. Foi, no entanto, obrigado em Novembro de 2025 a reconhecer o uso de tortura pela unidade militar Força 100 no centro de detenção de Sde Teiman, no deserto do Negev. O vídeo divulgado da tortura e violação de uma reclusa palestiniana foi visto milhões de vezes.


Dupla punição para os trabalhadores

Trabalhadores palestinianos detidos
por tentarem ir trabalhar para Israel, 30 de Março.

O meio de comunicação judaico-árabe +972 (6 de Maio) expõe a situação dramática dos trabalhadores palestinianos, excluídos do mercado de trabalho desde outubro de 2023.

O seu sofrimento é resumido por este acontecimento, filmado a 13 de Abril pela polícia israelita na estrada entre Telavive e a Cisjordânia: “A porta traseira de um camião do lixo abre-se lentamente. Lá dentro, cerca de sessenta palestinianos estão amontoados, com os olhos a lutar para se ajustarem à luz após uma árdua viagem.” Os polícias israelitas mantiveram-nos sob a mira de armas, gritando ordens e forçando-os a levantar as mãos instintivamente. Foram retirados do camião, com um braço atrás, e levados sob custódia. Tudo o que fizeram foi tentar atravessar ilegalmente para Israel, sem autorização de trabalho. Tratados como terroristas perigosos, estes homens não queriam mais do que ganhar a vida para alimentar as suas famílias.

A investigação comenta: “Durante décadas, o emprego de baixa remuneração em Israel — particularmente na construção civil, na agricultura e noutros trabalhos manuais — foi essencial para a subsistência dos palestinianos nos territórios ocupados, onde o controlo israelita sobre a economia mantém os salários baixos e o desemprego elevado. Em algumas cidades da Cisjordânia, mais de 90% dos homens dependiam de empregos em Israel. Hoje, estas oportunidades praticamente desapareceram”. Após 7 de Outubro de 2023, mais de 200.000 palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza foram impedidos de entrar em Israel. Privados de qualquer meio de alimentar as suas famílias, continuam os jornalistas, “muitos trabalhadores palestinianos têm corrido riscos consideráveis ​​para sustentar as suas famílias. Estima-se que 10.000 estejam a trabalhar em Israel sem permissão, um número provavelmente maior se não fosse o efeito dissuasor dos abusos generalizados nas prisões israelitas.”

Quanto ao governo israelita, acelerou a importação de mão-de-obra estrangeira — da Índia, Sri Lanka, Uzbequistão e outros países — para substituir os trabalhadores palestinianos. “Embora estes esforços (…) sejam em grande parte anteriores ao actual governo, o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich*, tornou-se uma figura central na sua aceleração.” Sob o pretexto da guerra, o seu ministério acelerou as reformas laborais neoliberais, afrouxando as regulamentações e, ao mesmo tempo, impondo o fardo mais pesado aos trabalhadores migrantes e aos poucos trabalhadores palestinianos que restavam… colocando-os uns contra os outros, explicam os autores desta investigação.

* Que se auto-intitulou “fascista” em Fevereiro de 2023.