Levantamento revolucionário dos operários e camponeses bolivianos

O que está a ocorrer na Bolívia nas últimas semanas é um levantamento revolucionário. A classe operária, aliada aos camponeses, quer derrubar o governo de Rodrigo Paz, subordinado ao imperialismo.

Eleito presidente há seis meses, Paz tem multiplicado medidas anti-operárias e anti-populares, que pegaram fogo ao rastilho.

Em Abril, a lei sobre a aquisição pelos grandes proprietários fundiários de terras dos pequenos camponeses provocou marchas de camponeses, que, na sua maioria, são oriundos das populações indígenas oprimidas.

A classe operária, sujeita a uma inflação de 14 %, rejeitou as medidas de austeridade e o plano de privatizações, obrigando a direcção da Central Obrera Boliviana (COB) a anunciar uma «greve ilimitada» a partir de 1 de Maio. Levantaram-se barricadas nas principais artérias rodoviárias, que são desmanteladas pela polícia e constantemente refeitas.

A repressão (oficialmente: 7 mortos, 23 feridos e 321 detenções) abateu-se igualmente sobre os dirigentes, entre os quais Mario Argollo, secretário-geral da COB, e os dirigentes camponeses Gabriel Mena e Vicente Salazar, acusados de «terrorismo» e obrigados a passar à clandestinidade.

Às reivindicações sociais juntou-se então a palavra de ordem de pôr Paz na rua. A 25 de Maio, milhares de mineiros, camponeses, operários e professores marcharam em La Paz, gritando: «O que queremos? Demissão ! Quando? Agora!»

Paz teve, naturalmente, o apoio do secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, que declarou, em nome dos Estados Unidos, que não permitiria «que criminosos e narcotraficantes derrubassem dirigentes eleitos democraticamente». Tentando restabelecer a estabilidade, Paz anunciou estar a tentar obter um empréstimo de 5 mil milhões de dólares junto do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mas os trabalhadores não desistem. No dia 27 de Maio, o Parlamento – reunido por videoconferência por causa das barricadas, que bloqueavam a capital – levantou todas as restrições legais ao recurso ao exército em caso de «distúrbios internos». Paz deslocou-se também à cidade de Santa Cruz para se encontrar com os Comités Cívicos, verdadeiras milícias contra-revolucionárias, mobilizadas para «limpar as barricadas».

Contudo, nesse mesmo dia, os sindicatos dos transportes declararam-se em greve por tempo indeterminado, enquanto – no dia de festa das mães – milhares de mulheres trabalhadoras se manifestavam, ameaçando ir aos quartéis buscar os seus filhos mobilizados para o serviço militar, para impedir que eles disparem contra os grevistas, «porque os mandámos para servir a pátria, não para matar o pai, a mãe, os irmãos e os tios». Como a repressão não bastasse, no dia 28 de Maio Paz fez um ultimato aos dirigentes, intimando-os a «vir dialogar», mandando que se anunciasse o levantamento das acções judiciais contra eles. Nas barricadas, porém – assim na grande cidade operária de El Alto –, a posição é clara: «Já dissemos que não dá para dialogar com este governo, ele que vá para a rua», explica Juan Hidalgo, dirigente local dum sindicato camponês, entrevistado pela Agence France-Presse. Uma pujante aspiração que vem de baixo e fez com que, no dia 31 de Maio, a assembleia plenária da COB rejeitasse as ofertas de «diálogo» e reafirmasse a exigência de que Rodrigo Paz se ponha a andar.

Solidariedade com os trabalhadores e o povo da Bolívia

O Sindicato dos Trabalhadores dos Serviços Públicos do estado brasileiro de Santa Catarina lançou uma iniciativa de saudação do levantamento pelo qual os “trabalhadores/as , camponeses/as e o movimento popular boliviano se mobilizam com greves e barricadas contra a política de fome e miséria do governo de ultra-direita de Rodrigo Paz». No contexto internacional de ameaças imperialistas contra Cuba e das guerras travadas por Trump e Israel, o manifesto do SINTESPE conclama «a classe trabalhadora e suas organizações políticas, sindicais, populares, mandatos, juventude a cerrarem fileiras diante das ameaças que pairam sobre o povo trabalhador em luta na Bolívia e Cuba (…). Nos dirigimos ao governo Lula para que manifeste seu apoio aos trabalhadores bolivianos e suas reivindicações e não envie nenhum pó de ajuda ao governo de Rodrigo Paz. Assim como esperamos que seja enviada ajuda para Cuba, que se encontra sob embargo energético por parte do imperialismo.

Além do SINTESPE, o manifesto é apoiado, entre muitos outros, pelo Comité de Luta do Campeche, a Organização Comunista Internacionalista (OCI/SC), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, o sindicato dos trabalhadores municipais de Florianópolis, a Associação Cultural José Martí, o sindicato dos trabalhadores em Processamento de Dados e o Diálogo e Ação Petista (DAP/PT) de Florianópolis.

Depois do gás, o lítio

Com 12,5 milhões de habitantes, a Bolívia foi dirigida, de 2006 a 2019 e de 2020 a 2025, pelo Movimento para o Socialismo (MAS), partido pequeno-burguês “progressista” dirigido por Evo Morales, hoje retirado na sua região de Chapare.

Recusando-se a pôr em causa a propriedade privada dos meios de produção e as instituições do Estado, os governos Morales redistribuíram uma parte das rendas do gás às camadas pobres das cidade e do campo. Porém, o recuo das exportações de gás foi o fim do MAS e de Morales. Hoje, são as reservas de lítio do sub-solo boliviano que despertam os apetites. A administração Trump veria com bons olhos que os grupos chineses fossem expulsos da Bolívia. No poder há seis meses, Rodrigo Paz reatou laços com os Estados Unidos, nomeadamente com a Drug Enforcement Administration (DEA, instrumento de ingerência norte-americana na América Latina, feita em nome da pretensa luta contra os «narcoterroristas»).