A foto mostra um rapaz palestiniano com um livro de gramática árabe na mão a olhar para o arame farpado que lhe bloqueia o caminho da escola. (…) A fotografia foi tirada por Andrei Khrjanovsky, um criador de conteúdos de 28 anos e activista anti-ocupação, que vive na Cisjordânia e passou a maior parte dos últimos dois anos a documentar a violência dos colonos e do exército em aldeias da Cisjordânia, como Umm al-Khair. (…) Natural de São Petersburgo, na Rússia, quando Khrjanovsky foi para Israel, em 2022, não era com intenção de ficar (…). No dia em que era para regressar à Rússia, depois de visitar os avós em Telavive, o exército russo invadiu a Ucrânia. Ficou, pois, em Israel, “era o passaporte mais fácil de conseguir” e nunca mais regressou à Rússia. (…) Mas afirma que a sua trajectória política o deixou, sobretudo, com “imensa desilusão com a oposição liberal russa”, particularmente pela reacção desta ao “extermínio em Gaza”. “Toda aquela gente que falava de direitos humanos e repressão na Rússia começou de repente a dizer, cito, que “Israel fazia muito bem em dissolver todos os palestinianos em ácido“. Durante o seu primeiro ano como imigrante em Israel, Khrjanovski começou a perceber até que ponto o militarismo e o racismo sistémico contra os palestinianos permeavam o quotidiano. (…) Conta que, quando andava à procura dum apartamento para os avós, em Netanya, um agente imobiliário lhe disse que “Netanya é um sítio óptimo para viver porque o presidente da câmara não permite que os árabes aluguem cá apartamentos”. “Fiquei chocado — não só porque tal coisa pudesse suceder, mas também por alguém poder dizer uma coisa destas a um estranho, presumindo-a aceitável”.
(…) Em Janeiro de 2023, Khrjanovski começou a trabalhar no Café Jaffa, um café e livraria palestiniana em Jaffa. Um dia, um dos proprietários disse-lhe que ia à Jordânia visitar familiares que tinham sido expulsos em 1948 e estavam proibidos de regressar a Israel. Sentiu imediatamente profundo desconforto. “A família dele vive aqui há centenas, talvez milhares de anos, e nem sequer o pode visitar. E aqui estou eu — que consegui um passaporte em três meses, quando os meus antepassados se calhar cá viveram há 3000 anos — ao pé dele. A injustiça é flagrante.” (…) Põe-se logo a filmar e a publicar vídeos a documentar a violência dos colonos, que tem o apoio do Estado, e a deslocação forçada de dezenas de aldeias palestinianas. Os seus vídeos tornam-se logo virais. Começa a receber telefonemas de toda a Cisjordânia para cobrir ataques de colonos (…). Relata também um incidente em que foi preso juntamente com jornalistas palestinianos. Estes pediram-lhe que filmasse na horizontal, pois era o único autorizado a registar a cena. “Sem estar presente um israelita, eles não teriam podido filmar a sua própria opressão”. Para ele, uma situação de “apartheid evidente“.