Guerra com o Irão: Trump reivindica a vitória. Será mesmo?

Por detrás do “acordo” entre Washington e Teerão

Foram necessários três meses e meio de guerra, semanas de hesitação e mudanças de rumo para chegar a este ponto: a 14 de Junho, os Estados Unidos anunciaram que tinham chegado a um acordo de paz com o Irão. O texto foi assinado remotamente a 17 de Junho pelos presidentes dos dois países (tendo, ironicamente, Trump escolhido assinar em Verailles, trazendo à memória a assinatura, em 1919, do tratado de Versailles formalizando a rendição da Alemanha no final da I guerra Mundial). A 19 de Junho delegações de ambas as partes encontraram-se em Genebra, para dar início a um processo de novas negociações que se prevê durarem 60 dias. “Ainda temos muito trabalho a fazer, mas esta é uma grande vitória”, declarou JD Vance, vice-presidente dos EUA. Mas reivindicar a vitória não basta para vencer uma guerra. O que o governo americano se recusa a admitir é que o seu acordo de paz com o Irão marca definitivamente a sua derrota numa guerra que ele próprio iniciou. “O principal objectivo de Donald Trump e de Israel era a queda do regime iraniano.” “Hoje, é o mesmo regime iraniano que negociou e assinou”, explicou o politólogo Hasni Abidi à France Inter, a 15 de Junho. “Esse regime ainda está lá, fortaleceu-se e endureceu, portanto, nessa perspectiva, venceu.”

O conflito com o Irão pode, na realidade, recomeçar a qualquer momento. Uma nova e crescente onda de escaramuças entre o Irão e os EUA reacendeu-se espoletada por esforços para reabrir o estreito de Ormuz sem qualquer supervisão directa do Irão, minando ainda mais o frágil acordo de paz provisório entre os dois países. A 28 de Junho, Teerão lançou ataques com drones e mísseis contra o Bahrein e o Kuwait após novos ataques dos EUA contra alvos no sul do Irão, e ameaçou interromper completamente as negociações para pôr fim à guerra. Trump afirmou que poderia chegar em breve o momento em que abandonaria as negociações e os EUA “terminariam o trabalho militarmente” garantindo que o Irão “deixaria de existir“.

Para os Estados Unidos, libertar-se da guerra no Irão está a revelar-se quase tão impossível como vencê-la. E todos se recordam do número revelado pelo canal de notícias norte-americano CNN: desde Março, Trump anunciou quase quarenta vezes que um acordo com o Irão estava prestes a ser concluído… sem qualquer sucesso.

E se o presidente americano procura uma saída a qualquer custo, é porque a crise política se agravou consideravelmente desde os primeiros bombardeamentos no Irão. A guerra é tão impopular como contestada. Com as eleições intercalares a aproximarem-se, Trump precisa de garantir a lealdade daqueles que o apoiaram na sua eleição em 2024. Durante a sua campanha, foi a eles que prometeu acabar com as custosas aventuras militares para restaurar o poder de compra dos americanos… Dois anos depois, a realidade é bem diferente: a guerra no Irão arrasta-se e a inflação atingiu o seu nível mais elevado em três anos em Maio. Mas a sua derrota no Irão não será suficiente para convencer Trump a abandonar a guerra. O imperialismo americano tem outros objectivos… por exemplo, preparar-se para uma guerra contra a China! Em resposta àqueles que o criticaram por não cumprir as suas promessas de campanha, Trump declarou a 7 de Junho: “Não garanti que não haveria guerra. Caso contrário, porque teria construído o exército mais poderoso do mundo?” Três dias depois, os republicanos divulgaram os detalhes da sua proposta de orçamento de defesa: 1 bilião de dólares para 2027.

Nelly Mary, La Tribune des travailleurs nº545 (Traduzido e adaptado)