Nos Estados Unidos, na Coreia do Sul (ver aqui) e no resto do mundo, o desenvolvimento da inteligência artificial está a tornar-se uma questão central na luta de classes. Dentro do sistema capitalista — um sistema focado exclusivamente no lucro da minoria que detém os meios de produção — a inteligência artificial apenas pode servir de ferramenta para destruir as forças produtivas. Em muitos sectores, o desenvolvimento da IA permitiu aos capitalistas implementar planos de despedimentos em massa. O exemplo mais recente: o anúncio da gigante americana Meta — proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp — da eliminação de 8.000 postos de trabalho (10% da sua força de trabalho), que serão substituídos por inteligência artificial de um dia para o outro.
Além disso, o desenvolvimento de centros de dados necessários para o bom funcionamento da inteligência artificial tem consequências nefastas para o ambiente e para as populações que vivem nas proximidades. A 23 de Maio, centenas de manifestantes reuniram-se em frente ao Capitólio do Estado do Utah, em Salt Lake City (no oeste dos Estados Unidos) para protestar contra a construção de um centro de dados. Há várias semanas que os residentes se mobilizam contra o projeto “Stratos“: um complexo de centros de dados de 16 mil hectares que exigirá o dobro do consumo anual de eletricidade do Utah. “Segundo os investigadores, a implantação de uma enorme infra-estrutura de IA pode, a curto prazo, levar ao sobreaquecimento local e aumentar as facturas de electricidade dos residentes” (La Tribune, 27 de Maio). O projecto pode ainda agravar a escassez de água e a emissão de gases tóxicos na região. A indignação dos moradores e a mobilização contra o data center não são apenas uma luta pela protecção ambiental. Por detrás do projeto Stratos está o empresário canadiano Terence Thomas Kevin O’Leary, que pretende maximizar o seu investimento. Afirma que o projeto Stratos “mostra à China e ao resto do mundo que não estamos a brincar: vamos levar este projecto para a frente, impulsioná-lo e fornecer a capacidade computacional necessária para as nossas empresas de IA que defendem o país. Actualmente, não existe nenhum local disponível para um data center desta dimensão.” Foi a esta lógica que os manifestantes se opuseram a 23 de Maio, lançando o slogan: “O dinheiro dos centros de dados não beneficia os menos afortunados. Kevin O’Leary, sai da nossa cidade!”