A estranha sanha contra Mário Tomé

Foi amplamente noticiada na imprensa a saída do Bloco de Esquerda de um grupo de sessenta militantes, entre os quais Mário Tomé, antigo dirigente e deputado da UDP.

Integram esta Plataforma por um Partido dos Trabalhadores (PPT) militantes com trajectórias distintas. Alguns de nós estivemos com Mário Tomé no Bloco de Esquerda. Ao seu lado lutámos contra a degenerescência final do Bloco. Alguns fôramos já antes companheiros de percurso de Mário Tomé durante a revolução portuguesa, na UDP/PCR. Outros estiveram também no Bloco de Esquerda, mas vindos de outras correntes, nomeadamente do marxismo revolucionário ou bolchevique-leninismo (também conhecido como trotskismo) e lutaram, com Mário Tomé e outros camaradas, contra a guerra imperialista e a ordem burguesa e, em particular, contra a submissão final do Bloco ao imperialismo e à guerra, na Ucrânia e na Palestina. Ainda outros militantes da PPT nunca estiveram no Bloco de Esquerda; mas todo sabem quem foi e todos sabem quem é Mário Tomé.

Todos estivemos com Mário Tomé no movimento sindical dos “Solidários”, na Plataforma contra a Guerra (“Nato, fora da Europa! Putin, fora da Ucrânia!”) e na Plataforma Unitária de Sindicatos que se bateu pela unidade e pela greve geral, contra a ofensiva contra-revolucionária e a divisão.

Mário Tomé representa a revolução portuguesa.

Foi, entre muitos outros, um “militar de Abril”.

Mas tornou-se, entre muito poucos, militante revolucionário.

Imerso no movimento imparável das massas trabalhadoras, rapidamente compreendeu que nenhum golpe de Estado nem nenhuma “aliança povo-MFA”, mas apenas a tomada do poder pelo proletariado organizado, pelos soldados e marinheiros, pelos camponeses pobres, só a revolução proletária vitoriosa poderia abrir uma saída à população explorada e oprimida deste país.

Concorde-se ou não com as posições de Mário Tomé em várias alturas do processo revolucionário (e nem todos concordámos sempre com ele), concorde-se ou não com as posições mais recentes de Mário Tomé no Bloco de Esquerda (e nem todos concordámos sempre com ele), a figura de Mário Tomé está imorredoiramente ligada à revolução proletária e socialista portuguesa — possa ele não concordar com esta caracterização!

Essa revolução proletária e socialista, essa “sovietização das forças armadas”, que gente como Mário Soares e os seus aliados de conveniência da altura, Álvaro Cunhal — para agarrar as massas pelos gorgomilos —, a Internacional Socialista — para fornecer à contra-revolução dinheiro, apoio logístico e uma vaga legitimidade social-democrata —, Frank Carlucci, a CIA e o Vaticano — para organizar o terrorismo, o trabalho de sapa e o desmantelamento da revolução —, afincadamente combateu e, pelo menos em boa parte, acabou por derrotar.

O debate que se desencadeou, nomeadamente nas “redes sociais”, quando Mário Tomé publicou as razões da sua saída do Bloco de Esquerda (com outros 59) surpreendeu pela raiva e ferocidade.

Esta invulgar sanha deve fazer-nos pensar.

Porque a raiva contra Mário Tomé pouco tem que ver com “raiva contra Mário Tomé”.

A extraordinária e enérgica (adjectivo que poucos, em condições normais, associarão ao Bloco de Esquerda!) reacção de muitos “bloquistas” à saída dos “sessenta” e, particularmente, de Mário Tomé, diz mais do que mil volumes sobre a irreversível degenerescência do Bloco.

É, muitas vezes, difícil situarmo-nos politicamente, no meio de divergências aparentemente obscuras, onde todos, com vocabulários parecidos, reivindicam a “pureza da linha”. Sói, por isso, ser mais fácil situar-se em relação a figuras. Não pela simpatia. Não pela eloquência, não pela retórica ou pela astúcia. Mas por se intuir que as trajectórias, posições, coerências que elas representam resumem melhor que aparentes divergências e concordâncias conjunturais “onde nos havemos de situar”.

Quem, num momento como este, em vez de sentir um sobressalto pelo significado histórico do abandono do Bloco da última figura que tenuemente o ligava ainda à revolução portuguesa, o ataca vilmente, está decerto definitivamente perdido para o que, no fim de contas, foi o fio condutor da actividade política de Mário Tomé — não o capitão de Abril, mas o dirigente revolucionário que cometeu os acertos e erros próprios de quem se bate: a procura da via para construir o partido de classe do proletariado, contra a colaboração de classes, contra a capitulação ao imperialismo em qualquer circunstância, pela revolução, pelo socialismo.

Nós, na PPT, dizemos, bem alto: saudamos o camarada Mário Tomé!

Com ele, saudamos o caminho da revolução.