Há mais de um século que a Alemanha é vista como país-chave para os desenvolvimentos económicos e políticos na Europa. Por boas razões. A Alemanha é a maior e mais forte economia industrial europeia. Tem, também, a classe operária mais organizada e sindicalizada do continente.
A importância histórica e política da Alemanha na Europa moderna vem de longe.
A história moderna começou com a revolução russa… e alemã
Aquilo que hoje se conhece como revolução russa de 1917, primeira revolução proletária e socialista da era moderna foi, na realidade, uma revolução europeia.
A Primeira Guerra Mundial de 1914-18, com as suas dezenas de milhões de mortos, fora o sinal de que o capitalismo já só tinha para oferecer guerra e destruição.
A revolução russa foi uma das revoluções operárias que eclodiram nos países europeus devastados e puseram fim à guerra. Não foi, porém, a única. Também na Alemanha os conselhos de operários, soldados e marinheiros derrubaram a monarquia e começaram a construir uma nova república.
No entanto, ao contrário da russa, a revolução socialista na Alemanha acabou derrotada, depois de várias vicissitudes, altos e baixos, entre 1919 e 1923.
O facto teve consequências decisivas na história do século XX.
Primeiro, convenceu a desbaratada, mas poderosa, burguesia alemã a apostar no fascismo nazi para esmagar o movimento revolucionário e reerguer o seu poder e autoridade.
Segundo, isolou a revolução russa, facilitando a ascensão da contra-revolução burocrática (estalinista) na URSS.
Capturada pela burocracia, a URSS transformou os partidos comunistas europeus em órgãos dos interesses do Kremlin e da sua política cada vez mais conservadora e reaccionária.
No final dos anos vinte, a política do PC Alemão, de divisão da classe trabalhadora alemã, facilitou a tomada do poder pelo nazismo. Uma vez no poder, os nazis esmagaram e liquidaram o movimento operário alemão, os seus sindicatos e partidos. O poder nazi avançou depois para a conflagração da Segunda Guerra Mundial.
O desfecho da guerra, com a derrota das potências do eixo, de que foi factor decisivo o sangue e o sacrifício das classes trabalhadoras soviéticas, acarretou o declínio dos velhos impérios europeus. Acabou, no entanto, por consolidar a hegemonia militar, económica, financeira e política do imperialismo americano no mundo.
Nos anos noventa, a economia soviética, controlada pela burocracia e asfixiada pela corrida aos armamentos, acabou por se desintegrar. Uma voragem de saque e pilhagem conduzida pelas forças combinadas do capital ocidental e dos sectores restauracionistas da burocracia abateu-se sobre os povos da Europa de Leste.
Do capitalismo renasce, sempre, a crise
No entanto, sejam quais forem as vicissitudes da história, ao capitalismo bastam as suas próprias leis de desenvolvimento internas para pegar fogo à próxima crise. No auge do domínio do imperialismo dos EUA começou o seu declínio.
Hoje, ninguém duvida seriamente de que a marca de água da situação mundial é a ofensiva do imperialismo americano, em todos os quadrantes, para tentar voltar a chamar a si uma parcela maior dos lucros da exploração capitalista do mundo.
Os capitalistas americanos estão a braços com os sinais inconfundíveis do declínio. As taxas de lucro e o investimento estagnam e caem.
A extraordinária absorção de capitais sedentos de lucro por umas poucas empresas ditas tecnológicas, especialmente as da IA, mal vela essa tendência geral.
A economia americana estagna, apesar da bolha especulativa alimentada pelas “tecnológicas”. Estas fazem grande parte da sua facturação em circuito fechado, umas com as outras, enquanto vão acumulando prejuízos. A bolha incha — até rebentar.
Acontece que nunca o capitalismo, na sua fase imperialista, encontrou outra saída para as suas crises que não o “salto em frente”: o confronto aberto com rivais, para lhes arrebatar fontes de lucro que “resolvam” momentaneamente os seus próprios problemas.
Uma guerra imperialista contra a China: na Ucrânia, no Irão, na Palestina…
Como se lê com todas as letras e sem disfarce nas recentes “estratégias de segurança nacional” dos EUA, as administrações americanas declararam guerra aberta à China; por enquanto, comercial, aduaneira e financeira.
A razão económica e o objectivo político do capital americano não podem ser mais claros. Trata-se de desmantelar a enorme, mas ainda largamente estatizada economia chinesa; abri-la à livre penetração dos capitais e mercadorias americanos; transformá-la num “novo” mercado aberto ao saque e à pilhagem.
As guerras da Ucrânia e do Irão e o apoio e incentivo da administração americana à campanha genocida do Estado sionista são meras escaramuças desta guerra global. Os recentes ataques do exército ucraniano a navios iranianos no Mar Cáspio vieram fornecer a prova real da íntima ligação entre as “duas” guerras do imperialismo americano.
Os imperialismos europeus que paguem
No entanto, para poderem sustentar a sua ofensiva bélica, as cúpulas financeiras e políticas dos EUA têm que dar por encerrado o tempo em que se dispuseram a compensar a fraqueza das velhas potências saídas exangues da IIª Guerra, as aliadas como as inimigas, empatando vastos recursos militares e financeiros próprios na “segurança” dos imperialismos menores da Europa e da Ásia Oriental. Era um investimento de longo prazo. Ficou demasiado caro.
Washington força agora os governos europeus e asiáticos a duplicarem ou triplicarem o seu próprio esforço bélico — particularmente, comprando milhares de milhões de dólares de equipamento militar aos grandes grupos do complexo militar-industrial americano.
Sobretudo, Washington força as chefias da UE, Alemanha, França, Japão, etc., a declararem finados os seus compromissos internos de “paz social” vindos do pós-guerra (ou o que deles resta). A ordem do dia dos governos é atacar frontalmente as suas classes trabalhadoras. Não há maneira de libertar os meios orçamentais exigidos por Washington para a guerra sem desmantelar o “Estado social”, a saúde pública, o ensino público universal, a habitação popular, os sistemas de pensões.
Os governos europeus, qualquer que seja a sua cor política ostensiva, são chamados a realizar este serviço a partir das directivas centrais da Comissão Europeia. A Comissão de Bruxelas funciona abertamente como correia de transmissão dos interesses da administração americana. Não é nada de novo; para essa função foi criada desde o início.
Na Alemanha, os trabalhos do governo Merz/SPD
Na Alemanha, o “trabalho sujo” está a cargo de um governo de coligação entre a democracia cristã (CDU/CSU) e a social-democracia (SPD), partidos tradicionais, respectivamente, da burguesia e da classe trabalhadora alemãs.
Acontece que ambos os partidos se encontram, há vários anos, em notório declínio eleitoral, acossados, principalmente, pela extrema-direita fascizante (AfD). A AfD inclui alas abertamente nazis e tem ganho apoios crescentes numa população desesperada, particularmente na antiga Alemanha Oriental. Ali, depois da “queda do Muro”, a população foi sujeita a um grau de pilhagem económica e social sem paralelo fora de tempos de guerra.
O primeiro ano do governo alemão chefiado pelo chanceler democrata-cristão Merz ficou marcado por infindáveis tergiversações. Os ministros do SPD, nomeadamente o “vice-chanceler” e ministro das finanças, começaram por aceitar mais do que duplicar os gastos militares nos próximos anos, nomeadamente através da criação de um fundo “extra-orçamental” de cem mil milhões de euros. No entanto, procuraram — muito debilmente — resistir a outras contra-reformas, ainda mais brutais, exigidas pela CDU e pela Comissão Europeia/Washington.
A impiedosa pressão do imperialismo americano, de Bruxelas e das confederações empresariais alemãs acabou, porém, por forçar a mão à cúpula da social-democracia, que fechou um “compromisso” com a CDU. O compromisso inclui “reformas” brutais, especialmente do sistema de pensões (“reforma”, como o leitor português já terá adivinhado, é o nome que, lá como cá, se tornou obrigatório para designar as contra-reformas que destroem os direitos das classes trabalhadoras).
O compromisso que selou a capitulação do SPD abre portas a uma avalanche. Fica para cair tudo aquilo em que os trabalhadores alemães puderam, durante as décadas que se seguiram ao fim da guerra, alicerçar vidas de trabalho duras, mas relativamente seguras.
Rasgando compromissos anteriores, a Volkswagen, maior empresa automóvel do mundo, já anunciou que vai despedir, nos próximos anos, cem mil trabalhadores em todo o mundo, um sexto da sua força de trabalho actual.
A indústria alemã despede actualmente ao ritmo de 15 mil operários/mês.
O dilema final da social-democracia
É importante, porém, compreender bem o mesmo que a burguesia alemã bem compreende: embora a social-democracia seja parceira minoritária no governo, é a ela que cabe o papel central no dispositivo de destruição.
Para o ilustrar perfeitamente, nada como citar uma “carta aberta” enviada publicamente à co-chefe do SPD e ministra do Trabalho e Assuntos Sociais, Bärbel Bas, pelo director dum órgão de imprensa alemão que se identifica como porta-voz do “capitalismo liberal” (The Pioneer, 26/6).
Só o SPD pode reformar o Estado social. É uma velha mecânica, que, ao fio das décadas, nada perdeu da sua eficácia. Só a esquerda pode decidir medidas que sejam inaceitáveis para os eleitores de esquerda. Only Nixon could go to China [em inglês no original alemão]. Esta frase serviu para descrever o fenómeno, em 1972, de que só o presidente americano de então, Richard Nixon, falcão, belicista e anticomunista primário, podia viajar até ao império vermelho de Mao Zedong para dar início à abertura. Pelo mesmo diapasão, o futuro chanceler Helmut Schmidt, do SPD, fez do rearmamento da NATO sua bandeira; e o seu camarada Gerhard Schröder deitou-se, algumas décadas depois, à reforma do mercado de trabalho. A missão histórica que lhe cabe a si, Bärbel Bas, é a de, com os conservadores, sanear o sistema de pensões. Já não é possível evitar que os mercados de capitais sejam o segundo pilar do sistema de pensões (…). A expansão do Estado social chegou ao seu fim natural. Expandindo o Estado social, o vosso SPD conseguiu grandes vitórias. Os operários conseguiram direitos sociais e melhorias financeiras. Tal foi o negócio histórico que você e os seus camaradas políticos propuseram ao povo: os operários ficaram com a semana de 35 horas, a co-gestão paritária e o salário mínimo legal. E o SPD teve direito a quatro chanceleres, de um total de dez. O negócio foi esse. Só que a moeda desse acordo, a unidade monetária do Estado social, agora já só é uma moeda fraca: qualquer um vê e sente que, com ela, já não vai receber a pensão por inteiro, nem sequer conseguir data para uma consulta médica. Cada nova prestação social só faz com que a mercadoria força de trabalho fique mais cara. O que antes foi um presente já não é presente nenhum. O negócio já não funciona: o operário percebe que vai ter de ser ele próprio a arcar com os custos sociais, apesar de, na verdade, não ter maneira de os pagar. Está a morrer à vista de todos — nas linhas de montagem da Volkswagen, nos altos fornos da Thyssenkrupp e nas fábricas da Bosch. Estamos a perder 15 mil postos de trabalho industriais por mês. As baixas de hoje, Bärbel Bas, são os seus antigos soldados da linha da frente.
Capitular ou resistir
A citação é longa, mas o convite é claro e curto: a burguesia sabe que só a social-democracia pode derrotar o operário alemão. O SPD começou a sua longa caminhada, no séc. XIX, como partido operário com um programa revolucionário e socialista. Burocratizada, a sua cúpula abandonou aos poucos a revolução, primeiro na prática, depois também na teoria: prometendo reformas, tentou convencer os operários a fazerem as pazes com o capitalismo.
Agora, o capitalismo moribundo exige ao SPD que feche a sua caminhada com o sacrifício extremo, o grandioso harakiri final: infligir ao operário alemão o golpe de misericórdia que salve o capitalismo alemão.
A parada é de tal ordem, que, mesmo no muito esclerosado aparelho da velha social-democracia, vozes se levantam contra o suicídio prescrito.
Leia-se abaixo a declaração dum grupo de deputados do SPD que apela à constituição de uma oposição interna para obrigar o partido a “mudar de rumo”.
Os subscritores compreendem que o SPD está a ser atirado para um dilaceramento mortal: ou soçobra em holocausto aos interesses superiores do grande capital; ou regressa ao socialismo e à classe trabalhadora que o fundou.
Os oposicionistas insistem em crer e fazer crer que se mantém possível um caminho de reformas, livre de convulsões e revoluções. Os argumentos com que o defendem são notoriamente débeis, ao fim de cem anos de falhanço.
Ainda assim, esta hesitante resistência dentro do aparelho refracta outra, maior e bem mais importante: a dos operários e trabalhadores alemães, que começam a ver que só deles próprios poderá vir a salvação.


UMA PERSPECTIVA ESTRATÉGICA
PARA A SOCIAL-DEMOCRACIA
4 de Agosto de 2026
A social-democracia encontra-se numa situação difícil na Alemanha. Assistimos ao agravamento da luta de classes vinda de cima e a como o sistema de crescimento capitalista chega ao seu limite. O que começou por aparecer como «luta cultural» contra a protecção do clima, contra a justiça entre os sexos e contra a solidariedade com os refugiados já há muito está fora do armário como programa político contra grande parte da população. Depois das campanhas contra o rendimento básico, estão agora na mira a saúde, as pensões e os cuidadores. Dispara-se contra direitos fundamentais dos trabalhadores, como o direito à greve, a co-gestão e a protecção contra o despedimento. Enquanto preços e rendas sobem e os encargos aumentam, estagna ou mesmo cai o nível de vida de muita gente.
Há um ano que o SPD faz parte de uma coligação com a CDU e a CSU. Enquanto a União promove uma política contrária aos interesses da maioria na Alemanha, o SPD esforça-se por evitar pioras: exerce uma influência moderadora, celebra compromissos em que, para repelir ataques num domínio, faz concessões noutro. O esforço para abrandar ou atenuar a luta de classes vinda de cima é uma causa perdida.
Ao fim de um ano, é já evidente que o risco de a AfD vir a participar (indirectamente) no governo não está a diminuir – pelo contrário. Além disso, aumenta a frustração de muita gente, que vê encargos e receios a aumentarem, sem ver ninguém que represente politicamente os seus interesses de maneira adequada. Isto, enquanto a credibilidade do SPD como representante dos interesses dos trabalhadores sofre muito com as concessões que tem feito na coligação. Ora, é hoje que uma social-democracia forte é mais necessária do que nunca, com credibilidade para organizar e impor os interesses da classe trabalhadora.
Organizar a resistência –
olhar para as reformas por um critério de classe
Não há actualmente no Bundestag maioria progressista para projectos e reformas políticos que vão realmente ao encontro dos interesses das pessoas. Por isso, nem com a maior habilidade negocial o SPD conseguirá, nesta coligação com a União, levar a cabo reformas que alterem efectivamente as relações de força a favor dos trabalhadores. Não seria, portanto, adequado aferir os resultados conseguidos pelo SPD nesta coligação pela sua capacidade de, contra a União, impor avanços estratégicos, como um imposto efectivo sobre o património e tectos de preços transversais.
O critério de êxito do SPD neste governo deve antes ser o de ele se conseguir ou não opor eficazmente à luta de classes vinda de cima, do lado do capital. Este agravamento da luta de classes é o que tem vindo a piorar as condições de vida, desse modo criando condições para o crescimento não só da frustração e da desilusão, mas também da disposição para votar em partidos de extrema-direita. Só que não basta limitar a resistência a determinados desígnios, abrindo, do mesmo passo, o caminho a outros. O SPD precisa de uma linha vermelha na coligação com a União: não proporcionar maioria a reformas que dêem alimento à luta de classes vinda de cima, que deteriorem as condições de vida e aumentem a pressão sobre as pessoas, e alterem a relação de forças em seu detrimento. Afira-se cada projecto de reforma assim: sujeita os trabalhadores, os reformados, as famílias, os inquilinos ou pessoas de baixos rendimentos a novos encargos? Enfraquece protecções, reduz prestações sociais ou ataca propriedade pública? Se a resposta é sim, o SPD não pode dar o seu apoio. Este método é desde já aplicável aos actuais ataques à protecção contra o despedimento e aos direitos dos trabalhadores, ao desmantelamento da segurança social e da propriedade pública, à ampliação dos contratos a termo e aos cortes de subsídios à habitação, bem como aos abonos à infância, à juventude e à reinserção social.
Sair da defensiva:
a nossa perspectiva socialista
No entanto, resistência, por si só, não basta. A resistência pode travar a luta de classes vinda de cima, mas não acabar com ela. A causa do agravamento da luta de classes são as crises do sistema económico capitalista. Para superá-las, são necessárias reformas que permitam melhoramentos estruturais, que nos permitam trilhar o caminho dum modelo económico menos propenso a crises.
O SPD tem, pois, de se pronunciar activamente por reformas que vão ao encontro das pessoas, que melhorem sensivelmente as suas condições de vida e mudem para melhor as relações de força sociais. Isso passa por impostos sobre o património e por um imposto sucessório mais justo, de molde a tributar mais fortemente as fortunas mais extremas e reduzir a flagrante desigualdade patrimonial, impostos sobre lucros extraordinários, uma redução do IVA e tectos aos preços que são molas da inflação, como combustíveis, eletricidade, energia e alimentos, reformas para garantir a todos um seguro nas áreas da aposentação, dos cuidados e da saúde, reformas que ampliem a validade dos acordos colectivos e um salário mínimo mais elevado, uma reforma da co-gestão e mais democracia no mundo do trabalho, o direito ao trabalho e à formação contínua, investimentos planeados e uma estratégia de transformação para a economia, tectos para as rendas e socializações que contenham a explosão das rendas.
Todas estas reformas iriam ao encontro dos interesses das pessoas. Não haver hoje maiorias políticas para concretizá-las não é motivo para desistir delas. É motivo para construir maiorias a seu favor. Se bem que não haja actualmente maiorias políticas no Bundestag que as favoreçam, elas têm o apoio de amplas maiorias da população. Possam tais intentos não ser exequíveis com a União — o SPD tem de sair a terreiro em sua defesa. Só assim as diferenças de objectivos políticos poderão sobressair claramente. Só assim poderá a social-democracia lutar pela tradução das maiorias sociais favoráveis a estes objectivos em maiorias políticas.
Mas também a ofensiva por uma sociedade melhor necessita de uma linha vermelha, para evitar que se transforme numa luta aleatória para melhorar isto ou aquilo. A linha vermelha é a nossa perspectiva socialista: queremos alterar as relações de força passo a passo, para alcançar uma sociedade cujo propósito e cerne seja não a produção de capital — mas uma sociedade cujo ponto de partida sejam as pessoas e as suas necessidades, que tenha no social a sua finalidade.
Organizar a mudança de rumo:
fazer do SPD um partido de classe
A actual crise da social-democracia não é fruto de decisões avulsas nem responsabilidade de certos indivíduos. Observamo-la à escala mundial. Ela tem causas estruturais, e, por isso, também a nossa resposta tem de ser estrutural. Começamos a ver respostas estruturais nos partidos sociais-democratas, pelo mundo fora, cujos militantes procuram uma mudança estratégica de rumo — abandonando a orientação de governar a qualquer preço e abraçando uma política de classe, virada para melhorar sem delongas as condições de vida das pessoas e oferecer uma verdadeira perspectiva de futuro. É neste sentido que queremos também nós organizar uma mudança de rumo na social-democracia alemã.
Nas próximas semanas e meses, é de prever que a crise do SPD se agrave. No Bundestag, o partido vai ter de dar execução a decisões acordadas na coligação com a União, o que suscitará novos protestos: continuação do aumento das despesas de armamento, cortes orçamentais, desmantelamento dos serviços sociais e novos ataques aos direitos dos trabalhadores. A mobilização contra estes desígnios ir-se-á intensificar nos sindicatos e movimentos sociais, o que promoverá o divórcio destes sindicatos e movimentos sociais. Em aumentando a indignação e a frustração de grande parte dos militantes, também dentro do SPD crescerão as forças centrífugas. Teremos, nas próximas semanas e meses, de estar preparados para esta situação; do mesmo passo, porém, precisamos de uma perspectiva que vá mais além.
Para isso, somos necessários. É necessária a organização daqueles que querem desenvolver a social-democracia como partido da classe trabalhadora e que têm uma estratégia para o efeito.
Para isso, vocês são necessários. É mais do que tempo de que todos aqueles que defendem um rumo estratégico diferente para a social-democracia se unam e se organizem.
- A Esquerda Democrática DL21 é uma associação independente em que se organizam os militantes da esquerda da social-democracia – com ou sem filiação no partido. Convidamos a filiarem-se nela todos aqueles que queiram lutar connosco por uma verdadeira mudança de rumo na social-democracia. Estás interessado? Adere agora!
- Convosco queremos expandir e fortalecer os nossos grupos regionais. Os nossos aderentes e interessados podem-se organizar nesses grupos, debater a actualidade política e trabalhar em conjunto em perspectivas para uma mudança de rumo da social-democracia e para um futuro melhor.
- Enquanto, na coligação com a União, o SPD fizer concessões à luta de classes vinda de cima, a nossa tarefa é apontar constantemente a «Linha Vermelha» desta coligação e exigir uma posição de classe. Mas não basta a Direcção Nacional da DL21 tomar posição. Se queremos levar a nossa crítica ao rumo actual da social-democracia, transversalmente, a toda a base do partido, os nossos membros e grupos regionais terão de participar nesse esforço e pôr à discussão textos políticos, resoluções e moções a todos os níveis do partido.
- Queremos formar e apoiar selectivamente candidatos e candidatas que se apresentem a cargos no partido e que se candidatem pelo SPD a cargos públicos, como presidentes de câmara e de junta de freguesia, bem como a vereadores, deputados estaduais e ao Bundestag. Mas não podemos esperar que os individualmente eleitos para cargos e mandatos consigam, por si só, mudar o rumo. Por isso, apoiamos e fortalecemos solidariamente aqueles que, exercendo já cargos e mandatos, lutem ao nosso lado por uma verdadeira mudança de rumo do partido — responsabilizando-os, igualmente, por darem uma contribuição efectiva para essa mudança de rumo.
- O processo de discussão sobre o programa político do SPD oferece igualmente a oportunidade de levar ao seio do partido as nossas críticas à linha actual — mas também a nossa perspectiva estratégica —, ali amplamente as debatendo. Por isso, estamos a elaborar teses sobre as tarefas da social-democracia no momento presente, que iremos injectar neste processo. Além disso, lutaremos para que, no novo programa político do SPD, o socialismo não apareça apenas como um valor abstracto, mas seja definido como objectivo político da social-democracia.
- O movimento operário surgiu de organizações de formação próprias, em que os trabalhadores adquiriram, nomeadamente, a compreensão do que é o capitalismo, a exploração e a perspectiva do socialismo. Queremos reatar com estas origens da social-democracia e desenvolver o trabalho de formação dos nossos militantes e de quem estiver interessado.
- Os sindicatos e movimentos sociais são os nossos aliados mais próximos e importantes. Se a actual política do SPD promove o alheamento deles, nós queremos reforçar os laços com eles e com os representantes dos interesses dos trabalhadores nas empresas. Com eles, queremos, à luta de classes vinda de cima, opor a nossa resposta vinda de baixo. Por isso, iremos apoiar e apelar à participação nos protestos que os sindicatos estão a organizar para o Outono.
- O rearmamento mundial não contribui apenas para aumentar o risco de novas guerras. A dívida para esse fim contraída é também, na Alemanha, uma das causas dos cortes sociais. Consideramo-nos parte integrante do movimento pela paz e opomo-nos ao rearmamento.
- A luta estratégica pela transformação do SPD em partido da classe trabalhadora não diminui a importância das lutas pela justiça entre os sexos e pela protecção do clima, contra o racismo, o anti-semitismo, o anti-ciganismo e outras formas de opressão e autoritarismo. Envolvemo-nos, pois, no movimento climático, nos movimentos sociais feministas, anti-racistas e noutros movimentos de emancipação social, veiculando as suas lutas para dentro do partido.
- O avanço dos partidos de extrema-direita torna necessárias alternativas progressistas. Para tal, também são necessárias alianças no campo vermelho-vermelho-verde [SPD, Linke e Verdes], para as quais contribuímos, nomeadamente, coordenando-nos com os nossos camaradas nos partidos respectivos. As eleições para os parlamentos estaduais deste Outono dão justamente o ensejo para promovermos activamente tais alianças.
Orientar a social-democracia como partido da classe trabalhadora é uma condição sine qua non para se poder dar o passo para uma sociedade mais social e democrática. Para isso queremos contribuir.