Netanyahu invade Rafah! ⎼ “Não temos para onde ir!”

A 6 de Maio, a força aérea israelita intensificou o bombardeamento de Rafah, “aconselhando” os residentes a “evacuarem”. A primeira ordem foi para que 110.000 fugissem de Rafah oriental. A seguinte, emitida no sábado, 11 de Maio, dirigia-se a mais 300.000. No momento em que escrevemos, o número de pessoas forçadas a fugir de Rafah subiu para 500.000.

Há semanas que Netanyahu anda a ameaçar invadir a cidade mais a sul da Faixa de Gaza, onde, antes da guerra actual, viviam 260.000 pessoas. Hoje são 1,5 milhões de palestinianos, à fome, à sede e exaustos, que vivem em tendas improvisadas, na lama, ao frio e à chuva ⎼ muitos deles de luto pela morte de familiares.

Com a travessia de Rafah fechada, tomada pelas tropas israelitas, “o Programa Alimentar Mundial anunciou que ficará sem alimentos para distribuição no Sul de Gaza até 13 de Maio”, segundo declarou o funcionário em Rafah da Agência da ONU de Coordenação dos Assuntos Humanitários, Georgios Petropoulos. 

Petropoulos acrescenta que “os trabalhadores humanitários não dispõem de material para se poderem instalar em novas posições. Não temos pura e simplesmente nem tendas, nem cobertores, nem roupa de cama, nenhum dos artigos que uma população deslocada pode esperar obter do sistema humanitário”. 

Segundo a ONU, 30% das crianças com menos de dois anos em Gaza sofrem de subnutrição aguda ou definhamento, e 70% da população do Norte de Gaza enfrenta uma “fome catastrófica”, estimando-se que 300.000 sofram de “fome total”.

Um memorando da UNICEF não podia ser mais explícito: este será o pior banho de sangue de toda a guerra, que começou há sete meses! Com efeito, “não há refúgio seguro” para as 600.000 crianças atiradas para Rafah.

O quadro apresentado por Biden vai dar muito jeito a Netanyahu

Em 10 de Maio, o Departamento de Estado dos EUA apressou-se a “clarificar” uma declaração feita uma semana antes pelo Presidente Biden. Este dissera que suspenderia o fornecimento de armas americanas a Israel se Netanyahu avançasse com a invasão terrestre de Rafah.

Tal declaração fora feita sob a pressão do histórico movimento de solidariedade pró-Palestina ⎼  mormente os protestos nas cidades universitárias que alastram pelo país ⎼ , tendo Biden dito a Erin Burnett, da CNN: 

Morreram civis em Gaza em consequência dessas bombas e de outras formas de ataque a centros populacionais a que eles recorrem. Deixei claro que, se eles entrarem em Rafah… , não vou fornecer as armas que historicamente têm servido para lidar com Rafah, para lidar com as cidades para resolver esse problema”.

A intenção de Biden era soltar uma patranha que apaziguasse a opinião pública internacional… enquanto mantinha o seu apoio “blindado” ao Estado sionista. Funcionários do Pentágono e do Departamento de Estado têm declarado repetidamente, em nome de Biden, que, apesar de ocasionais diferenças “tácticas”, apoiam “incondicionalmente” os objectivos israelitas.

O embaixador dos EUA em Israel, Jack Lew, disse ao canal israelita 12 News ser “um erro pensar que alguma coisa de fundamental mudou na relação entre os dois países”. Acrescentou que os EUA, “quando se fez a revisão do memorando de segurança nacional, concluíram que não haverá interrupção na ajuda dos EUA a Israel”.

Biden estabeleceu um quadro que dá muito jeito a Netanyahu, apesar de este ir bufando aqui e ali. Biden suspendeu temporariamente a entrega de 3.500 bombas, principalmente bombas rebenta-bunker de 2.000 libras, mas só depois de enviar um vasto suprimento de bombas e outras armas para Israel poder continuar. “Temos o que necessitamos”, jactou-se o contra-almirante Daniel Haggard, porta-voz militar em chefe de Israel. “O exército tem munições para as missões planeadas e também para as missões em Rafah.” 

O que isto significa, conforme o jornalista Mitchell Plitchard disse à Mondoweiss, é que Israel pode continuar estas acções indefinidamente. “Isto permite a Netanyahu travar uma guerra prolongada”, afirmou Pritchard, “e ponto mais importante aumentar maciçamente o já considerável número de baixas palestinianas causadas por doenças curáveis, subnutrição, fome, falta de acesso a cuidados médicos para doenças crónicas e outras causas não incluídas nas contagens de mortes.

 “Nunca lhes dissemos que não podiam operar em Rafah”, disse John Kirby, o porta-voz para a segurança nacional da Casa Branca, “O que lhes dissemos é que a forma como o fizerem importa“.

A declaração de Kirby, em nome da administração Biden, juntamente com a divulgação do Memorando de Segurança Nacional NSM-20 do Departamento de Estado, no mesmo dia, dão sinais fortes e claros de Washington.

Não demorou muito para Israel perceber a mensagem, ampliando o ataque a Rafah e expandindo as suas operações no Norte de Gaza, onde 100.000 a 150.000 palestinianos foram “aconselhados” a “evacuarem” o campo de refugiados de Jabaliya, com os tanques das FDI a chegarem lá antes de avançarem para Beit Lahiya e Beit Hanoun.

Um relatório cínico e revoltante do Departamento de Estado

O relatório NSM-20 do Departamento de Estado, um estudo que incide ostensivamente nas violações dos direitos humanos no uso de armas letais fornecidas pelos Estados Unidos, afirma que Israel provavelmente violou o direito internacional, mas continua a ser elegível para ajuda militar dos Estados Unidos. A linguagem do memorando é cínica e revoltante. Um excerto do relatório reza assim:

Os serviços de informações (SI) dos EUA não têm indicações directas de que Israel tenha, intencionalmente, tomado civis como alvo. No entanto, os SI consideram que Israel poderia fazer mais para evitar danos a civis. … Era razoável concluir que, em alguns casos, as Forças de Defesa de Israel transgrediram o direito internacional… Israel tem tomado algumas medidas e desenvolvido instrumentos para atenuar os danos causados a civis… mas os resultados no terreno suscitam a interrogação se as FDI estarão sempre usando eficazmente esses instrumentos”.

Não obstante, o relatório conclui que “o governo dos EUA não tem conhecimento de que os artigos de defesa abrangidos pelo NSM-20 (…) estejam a ser usados indevidamente para fins incompatíveis com os previstos”, abrindo assim as comportas para a continuação das transferências de armas.

Nem todos os membros do Congresso apoiaram este memorando branqueado. “O relatório contradiz-se a si próprio… tresanda a cobardia a falta de vontade de dizer o que é manifesto”, disse o senador de Maryland Chris Van Hollen”. (Washington Post, 11 de Maio). 

“Uma piada sinistra” 

Biden e os seus representantes reivindicam ter “elucidado o governo israelita sobre o nosso ponto de vista”. Josep Borrell, chefe da diplomacia da UE, apelou a Israel para “pôr termo à ofensiva terrestre”. O governo francês diz que se “opõe” à ofensiva, chegando ao ponto de lhe chamar “crime de guerra”.

Hipócritas, Biden, Borrell e Macron! Foram as armas que eles forneceram que Netanyahu usou para lançar esta nova fase do genocídio! São os acordos e as relações diplomáticas deles e os meses de “apoio blindado e incondicional” de Biden que dão audácia a Netanyahu, apesar da ocasional palmada na mão que o financiador, segurador e melhor aliado de Israel lhe dá de quando em vez.

Uma vez mais, é responsabilidade dos dirigentes do movimento operário organizar a mobilização dos trabalhadores de todo o mundo para unirem forças com os estudantes e colectivos que exigem:

⎼ Fim imediato da ofensiva contra Rafah! 

⎼ Levantamento do cerco a Gaza!

⎼ Fim dos fornecimentos de armas a Israel!

– Abaixo o Genocídio!

Traduzido de Socialist Organizer (www.socialistorganizer.org, 13 de Maio de 2024